Grucha Vachnadze, agachada à beira do rio meio gelado, colhe água nas mãos para dar ao menino.
GRUCHA <canta>
Já que em ninguém encontraste
Coração amigo,
Tens que, à falta de outro amparo,
Te arranjar comigo.
Porque, ao peito carregando-te,
Dias e dias, nas pedras
Da estrada os pés me feri,
Porque o leite era tão caro,
Fiquei gostando de ti,
Não posso passar sem ti.
Tira a camisinha fina,
Veste este trapo, lavar
Te vou e te batizar
Na água gelada do rio,
Meu lindo! Tens que aguentar.
(BRECHT. O círculo de giz causasiano. Cosac Naify, 2010. p. 98)
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
RECITANTE
Estando ela entre uma porta e outra, ouviu
Ou julgou ouvir um fraco apelo: o menino
Chamava-a, não choramingava, chamava-a inteligentemente,
Pelo menos assim lhe parecia. "Mulher", dizia ele, "socorre-me".
E prosseguiu, não choramingava, falava inteligentemente:
"Sabe, mulher, quem ouve um grito de socorro
E faz ouvidos moucos e passa: nunca mais
Ouvirá o doce apelo de seu amado,
Nem o canto de melro na madrugada, nem o delicado
Suspiro dos vindimadores exaustos às "Aves-Marias".
(BRECHT. O círculo de giz causasiano. Cosac Naify, 2010. p. 74)
Estando ela entre uma porta e outra, ouviu
Ou julgou ouvir um fraco apelo: o menino
Chamava-a, não choramingava, chamava-a inteligentemente,
Pelo menos assim lhe parecia. "Mulher", dizia ele, "socorre-me".
E prosseguiu, não choramingava, falava inteligentemente:
"Sabe, mulher, quem ouve um grito de socorro
E faz ouvidos moucos e passa: nunca mais
Ouvirá o doce apelo de seu amado,
Nem o canto de melro na madrugada, nem o delicado
Suspiro dos vindimadores exaustos às "Aves-Marias".
(BRECHT. O círculo de giz causasiano. Cosac Naify, 2010. p. 74)
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