"Quão prodigiosamente somos salvos, sem de nada saber. Como, quando estamos em dúvida ou hesitando (num dilema, como se diz) entre tomar este ou aquele rumo, uma indicação secreta nos conduz para um dos lados, quando é para ele que devemos ir; mesmo quando a razão, nossa inclinação ou talvez algum interesse nos convoca para o lado oposto, ainda assim uma impressão incômoda em nosso espírito, que não sabemos de onde brota, e produzida não sabemos por qual poder, acaba por nos fazer tomar o caminho de cá: e mais tarde fica evidente que, tivéssemos tomado o rumo que pretendíamos, e que chegamos a nos imaginar tomando, seriam certas nossa ruína e nossa perdição."
-Robinson Crusoé, de Daniel Defoe
O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.
Vinícius de Moraes